Ações em queda e anúncio de gastos de 4,4 bilhões vão de encontro ao capitalismo predatório dos investidores. Homero Gotardello.

Em Maranello, a fábrica da Ferrari passa por uma importante reformulação, para a inclusão de pacotes de baterias nas linhas de montagem. “Vamos investir 4,4 bilhões de euros (o equivalente a R$ 24,2 bilhões) para o desenvolvimento de uma linha de modelos híbridos plug-in e EVs que comporão 60% de nossa gama, até 2026”, declarou o presidente-executivo (CEO) da marca, Benedetto Vigna, adiantando que, daqui a três anos, o mundo conhecerá seu primeiro veículo 100% elétrico. O executivo, no entanto, não tem certeza se essa guinada rumo à eletrificação preservará o aspecto passional que seus superesportivos despertam nos mais variados públicos. “Posso garantir que seguiremos entregando um automóvel a menos do que o mercado exige”, disse Vigna, evocando um verdadeiro lema do “comendador” e fundador da marca, Enzo Ferrari, em relação ao rígido controle da oferta. Bom, independentemente de o fabricante manter seu “sex appeal”, é com a virilidade financeira que a direção está preocupada.

“Nossa meta de crescimento anual é de 9% e, para 2026, estimamos lucro – EBITDA, antes de juros, impostos, depreciação e amortização – de 2,7 bilhões de euros (o equivalente a quase R$ 15 bilhões), de quase o dobro do registrado no ano passado, que ficou na casa de 1,5 bilhão de euros”, afirmou o diretor de vendas da empresa, Enrico Galliera. “Ficamos sobrecarregados com o lançamento do utilitário-esportivo (SUV) Purosangue, que será apresentado em setembro, mas estamos atentos para manter o prestígio histórico de nossos modelos”, acrescentou.

A verdade é que, apesar de ter uma legião de entusiastas e manter margens de lucro invejáveis para os acionistas de outras companhias, a Ferrari viu suas ações caírem recentemente, em parte à preocupação dos investidores justamente relativas ao caríssimo processo de eletrificação da gama – quando se trata de capital, não há paixão e a preocupação do mercado é com o controle dos gastos, em que pese o fato de isso representar a precarização do produto; afinal, o consumidor acaba a aceitando, até pelo fato de o fetiche da mercadoria não estar na essência do produto, mas na marca que ele ostenta.

Condução autônoma

“Recentemente, recebemos em nossas instalações um grupo de especialistas em inteligência artificial (AI), que vinham nos apresentar a razões pelas quais nossos modelos deveriam incorporar sistemas de condução autônoma”, contou o CEO, Benedetto Vigna. “Eu os convidei para, antes, darem umas voltas na nossa pista, de ‘carona’, com nossos pilotos de testes e resultados foi que, ao final, todos disseram que esta tecnologia é inútil para nossos superesportivos”, acrescentou. “Jamais iremos ofertar os recursos do Nível 5 – veículos capazes de rodar sem interferência humana. Mas seguiremos adotando os mais modernos sistemas de assistência. Digamos que vamos parar no Nível 2 ‘Plus’, porque a interação entre homem e máquina é nosso espírito e nenhum de nossos clientes compraria um Ferrari para entregar o volante a um computador”.

Não se sabe se a tecnologia embarcada será limitada pela paixão ou por economia com mais um gasto astronômico, mas as palavras de Vigna soam como poesia para os amantes de uma marca que, inquestionavelmente, desperta o que há de mais romântico nos seus fãs. De qualquer forma, estamos falando de uma montadora que tem 15 lançamentos previstos para o triênio entre 2023 e 2026.

“No ano passado, os modelos híbridos representaram 20% de nossas vendas. Em 2025, essa participação subirá para 55%, mas, em 2030, ela deve cair para 40%, mesma fatia que os EVs terão”, avalia o diretor comercial, Enrico Galliera. “Gosto de frisar que faremos nossos próprios motores elétricos, inversores e módulos de baterias. Acreditamos que a eletrificação pode melhorar o desempenho de nossos superesportivos e fazê-los ainda mais exclusivos”.

Apesar do cenário de pandemia, as vendas da Ferrari cresceram 22%, alcançando o recorde de 11.155 unidades. As únicas versões que viram suas comercializações caírem foram as equipadas com motores V12, mais potentes e poluentes. A China foi o mercado que mais cresceu e a expectativa para o biênio atual é muito boa: “Temos a maior carteira de pedidos da nossa história, dois dígitos acima de 2021, cobrindo até o final de 2023”, disse Galliera.

As aparências enganam

Ocorre que, por trás dos holofotes, as coisas nunca são como parecem. Pelo menos esta é a impressão que analistas da GAM Luxury Brands, fundo de investimentos para valorização de capital a longo prazo, que monitora e atua com 35 marcas de alto luxo, em nível global. O fundo investe em empresas bem capitalizadas que têm um crescimento de receita composto com margens altas e estáveis em seu núcleo. “A Ferrari busca adaptar sua expertise – como fabricante de superesportivos – a um mundo em profunda transformação, evitando saturação na oferta para garantir valor acima de volume. O foco, hoje, é sua estratégia de eletrificação, mas a expectativa é para grandes gastos em investimentos estruturais para se obter retorno, no futuro”, avalia a diretora da carteira, Swetha Ramachandran. “Nos últimos anos, é uma empresa que deixou de garantir retornos excepcionais e, pior, que viu seus concorrentes direitos equipararem o jogo”, acrescentou.

Ou seja, além da preocupação com o produto, Benedetto Vigna tem que garantir aos investidores que a Ferrari seguirá como mais do que um porto seguro. “Quando John Elkann nomeou um outsider para reinventar a marca, ele já devia imaginar que tratava-se de uma tarefa hercúlea”, pontuou o presidente do comitê de auditoria e riscos da Red Burn, John Stier. “Vigna trouxe vários executivos que, em tese, chegaram para ajudá-lo nesta difícil missão, mas o que aconteceu, na prática, foi um grande abalo na estrutura organizacional do fabricante”, completou.

Para quem não conhece Elkann, de apenas 46 anos, ele é o “herdeiro” de Gianni Agnelli – magnata italiano e principal acionista da Fiat – e, também, o chefão do grupo Stellantis, acima de Carlos Tavares, além de ser o presidente-executivo (CEO) da Exor, 37º maior holding do planeta. A Exor é, na verdade, a controladora da Ferrari, detentora de 23% de seu capital social e de 36% dos votos de seu conselho administrativo. “Criamos uma nova estrutura organizacional focada em inovação, na otimização de processo e, também, em uma relação mais colaborativa com nossos fornecedores”, frisa Elkann, deixando claro que os investidores estão ansiosos por resultados.

Há dez dias, a marca do “cavallino rampante” apresentou Carla Liuni como sua nova diretora de marca. A chegada de Carla, em parte, confirma a impressão dos analistas da GAM LuxuryBrands. A nova executiva tem experiência nos segmentos de alto luxo (Bulgari) e jóias (Pandora) e sua nomeação é outra evidência de que a eletrificação pode desnutrir a Ferrari daquilo que é, há décadas, sua grande fonte de energia. “Temos um plano para que os produtos de extensão, como coleções regulares de moda masculina e feminina, representem 10% do lucro da companhia, em dez anos”, destacou ela. Como se vê, “de perto ninguém é normal” e, daqui de longe, do Novo Mundo, aquilo que parece um titã imobilizado pelo prestígio enfrenta, na verdade, questões mais complexas do que a virada da eletromobilidade representa em termos técnicos e industriais.